InícioInício  Portal GPAPortal GPA  FAQFAQ  BuscarBuscar  Registrar-seRegistrar-se  MembrosMembros  GruposGrupos  Conectar-se  

Compartilhe | 
 

 Peixes Para o Aquario Marinho Parte II

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo 
AutorMensagem
Denis Cetera
Moderador
Moderador
avatar

Número de Mensagens : 1089
Idade : 40
Data de inscrição : 11/04/2008

MensagemAssunto: Peixes Para o Aquario Marinho Parte II   Dom Maio 04, 2008 1:46 am

Introdução

Após a breve introdução da primeira parte, retomaremos com algumas necessidades dos peixes quando transferidos para o aquário.

Muita observação de peixes em cativeiro, seja em grandes baterias, seja em aquários, me levou a perceber que o maior fator deflaglador de problemas em peixes é uma combinação entre ambiente, co-habitação e alimentação. A combinação é cruel, posto que raramente se encontram os três itens agregados nas lojas e atacados de qualquer país, não só do Brasil.

Existem meios para encobrir a importância de um deles em detrimento de outro, e por isso é que procuramos adaptar os animais a uma nova dieta assim que chegam às lojas. Se o peixe se alimenta, a possibilidade dele resistir ao cativeiro é maior. Repondo energia por intermédio de alimentos altamente protéicos como artêmia salina, vôngoli, escarola e outros, além dos equilibrados alimentos secos e congelados à disposição, o animal é capaz de superar o trauma do transporte e liberação na loja.



Ambiente

Curioso notar que, ao meu ver, o trauma da captura e transporte é tão profundo, que o peixe geralmente demora meses ou anos para superá-lo; basta aproximar-se do aquário sem nada na mão. Os peixes são indiferentes. Com uma rede na mão, a situação muda drasticamente; os peixes tentam se esconder da maneira que podem; parece que o aquário está pegando fogo.

Já que o trauma é enorme, cabe a nós procurar acalmar os animais, mantendo-os num local com a melhor qualidade de água possível. Alimentá-los com a maior variedade de comida de qualidade também ajuda, pelas razões que vimos acima. Os problemas que sobram, portanto, são ambiente e co-habitação.



Se entrar numa loja e vir um peixe-leão junto com pequenos palhaços ou donzelas, fique tranqüilo; o leão está se banqueteando com a melhor dieta possível ! Esse é um exemplo extremo, pois normalmente não se coloca predadores com suas presas e peixes da mesma família e tamanho semelhante juntos, pois há brigas e ataques freqüentes. Mais estresse, e essa me parece ser a palavra chave.

Estresse. Peixes soltos após chegarem na loja apresentam-se normalmente bem por um ou dois dias, e logo podem mostrar sinais de problemas. Parasitismo e bactérias, relacionados a baixa resistência orgânica, aparecem assim que o peixe supera a primeira parte de seu trauma de transporte e soltura. Durante o período de estresse, o animal se agüenta firme - muito parecido com o comportamento humano, inclusive. Assim que o fator mais premente é superado, o animal cai vítima de seu próprio relaxamento, e, com o organismo debilitado pelo esforço de se manter vivo, fica presa fácil de doenças.

Por causa disso, não se deve tratar as baterias com remédio assim que os peixes chegam, ou adivinhar o tratamento adequado com profilaxia. Os animais estão tão cansados quando chegam, que água com características anormais só serve para estressá-los ainda mais.

O tratamento só deve se dar quando o animal dá sinais da doença.

Quando chegamos à loja para comprar peixe, portanto, temos de ter em mente que tudo isso está acontecendo. Procure peixes que estejam há bastante tempo na loja, ou compre o peixe para introduzí-lo antes numa quarentena em sua casa. Após adaptado à quarentena, a possibilidade do animal infectar seu aquário é minorada ao máximo possível, e é também coberta a chance dele ter problemas com os habitantes anteriores do aquário.

Co-habitação

Tratar de um aquário como um ente individual – uma alusão a um corpo humano, é muito interessante; o skimmer são os pulmões, as bombas o coração e sistema circulatório, a luz e comida a energia, as rochas e areia o sistema digestivo, e por aí vai. Eis meu segredo. É uma visão holística e romântica, mas é assim que prefiro ver o aquário. Um enorme corpo, de cujo equilíbrio depende minha observação e atitudes.

Colocar os peixes, portanto, é fator que determina a forma como quero que esse corpo funcione. Por um peixe grande e adulto num aquário é o mesmo que fazer uma séria e delicada operação de transplante de órgão. As chances desse "transplante" vingar são menores do que se colocarmos um pequeno peixe, novo e mais adaptável.



A co-habitação e por conseqüência, a combinação entre os peixes do aquário, determina se o ambiente será calmo, com animais que combinam entre si, ou se o aquário será eternamente uma praça de guerra, com peixes que se detestam correndo um atrás do outro o tempo todo. A visão de um aquário conturbado assim é ao mesmo tempo interessante e perturbadora; não é justo, mesmo que por ignorância, fazer isso. O peixe mais fraco não tem para onde fugir, e a persistência do mais forte em mantê-lo fora de seu terrotório geralmente leva o mais fraco à morte.

No mar, escaramuças são breves. O mais forte se aproxima, e muitas vezes não há sequer contato físico; o mais fraco foge para longe antes que possa sofrer qualquer dano.

Já que o ambiente é limitado em tamanho, devemos ter consciência para não provocar esse problema.

O tamanho do aquário também é muito importante, pois com bastante água – falo de um mínimo de 1.000 a 1.200 litros – as agressões tendem a ser menores entre peixes das mesmas famílias.

Deve-se evitar por no aquário dois peixes de uma mesma espécie, a não ser que sejam um casal – fato raro – ou que o aquário seja grande suficiente.

Dado que a maioria dos aquário residenciais não atinge proporções que permitam essa disposição, devemos evitar colocar num mesmo tanque dois Zebrassomas iguais, por exemplo. Cito os Zebrassomas por causa de um fato muito interessante; esse peixe é encontrado em cardumes enormes em seu ambiente natural. Porque, então, são tão agressivos entre si no aquário ?

Porque quando jovens, não são gregários. Passam a sê-lo após semi adultos. Enquanto pequenos, precisam se alimentar e se esconder ao mesmo tempo; a maior parte dos predadores é grande, e está sempre à espreita. Após adquirir tamanho considerável, juntam-se em cardumes para poder nadar ao largo, mais longe das rochas, para buscar comida. O cardume, portanto, é uma proteção. O grande corpo único que aparenta ser inibe o ataque de predadores. Em aquários realmente grandes, geralmente tanques públicos, existem cardumes de Zebrassomas de bom tamanho, e seu comportamento é semelhante ao que se observa no mar.

Comportamentos como esse, de peixes que mudam de acordo com a idade, são bem mais comuns do que parecem; peixes anjo juvenis, por exemplo, comem parasitas de outros peixes, de maneira muito semelhante aos verdadeiros limpadores (labróides). Após essa fase, em que se alimentam também de outros itens, passam a ser onívoros, se alimentando de matéria vegetal e pequenas presas. Em sua fase adulta, muitas espécies se alimentam quase exclusivamente de esponjas. Isso é assim com o lindo habitante de nossos mares, Holacantus tricolor. Fazer um tricolor adulto se alimentar em cativeiro é uma das tarefas mais difíceis do aquarismo.

Existem peixes gregários que continuam a ter seu comportamento natural no aquário. Palhaços, com exceção do Premnas biaculeatus (maroon), costumam se adaptar bem em grupos, mesmo que não provenientes de um mesmo grupo original da Natureza. Chromis spp., alguns labróides (Yellow coris), alguns apogonídeos (Banggai Cardinal) e outros peixes também se adaptam bem. Um lojista preparado pode lhe aconselhar satisfatoriamente.



Muitos peixes, inclusive, precisam fazer parte de um grupo para se adaptar ao aquário; o sentido de grupo é fundamental para sua boa sobrevivência. Algumas espécies de Anthias se dão melhor dessa maneira, e o firefish (Nemateleotris magnifica), por exemplo, precisa tanto da segurança proporcionada pelo grupo, que dificilmente se mantém por muito tempo no aquário, quando colocado solitário. Nessa situação, seu comportamento muda; fica entre as rochas, só saindo quando vê alimento, e mesmo assim, por um átimo. Come, e volta à rocha. Acaba morrendo por não se adaptar. Alguns wrasses, principalmente os do grupo chamado "fairy wrasse" (P. filamentosus e outras), também têm a necessidade de grupo. Coincidentemente, esses últimos peixes citados são tidos como difíceis de se manter em aquário. Não são ! Desde que fornecidas condições satisfatórias, em que possam se habituar ao aquário com o mínimo de estresse, são pacíficos e longevos habitantes.

Alimentação

Qualquer um que já mergulhou, e não necessariamente em recife de corais, percebe facilmente um fato; quando avistamos peixes, geralmente estão bem gordos. A maior diferença entre peixes em aquário e na Natureza é essa, ao meu ver. Peixe de aquário costuma ser magro, comparado a seu conspecífico no mar. Uma série de motivos pode ser dada como justificativa para isso ocorrer, mas nenhuma confirmável. Vamos aos fatos; há muito se diz que alimentar demais os peixes causa problemas de sujar a água do aquário e comprometer todo o sistema. Considerando que estamos tratando com bom senso, é claro que não posso sugerir que se despeje indiscriminadamente potes e potes de comida no aquário para ver o peixe engordar em dois dias o que custou talvez um mês para emagrecer. A questão, aqui, não é quantidade, e sim qualidade.



Peixes anjo, por exemplo, devem ser servidos com dieta variada. No mar, são muito oportunistas, se aproveitando de vegetais e animais indistintamente, durante sua fase pós juvenil. Essa é a fase que mais nos interessa, pois a maioria dos anjos no mercado está nela. P. imperator, P. semicirculatus, E. navarchus, e muitos outros anjos engordam e ficam coloridos como no mar se forem servidos com uma combinação racional de flocos de diversas formulações, artêmia salina enriquecida com vitaminas, vôngoli, pequenos pedaços de peixe, pequenos pedaços de crustáceo, comida peletizada, congelada e vegetais. O melhor vegetal que encontrei para oferecer a anjos e tangs é a escarola. Também chamada de chicória, é um vegetal de folhas bem verdes, desde verde água para as folhas pequenas, até um verde bandeira para as folhas grandes. Os peixes comem indistintamente ambos os tipos de folha. Muitos comem até o talinho, a nervura central da folha. Anjos, zebrassomas, acanturídeos, nasos e outros vegetarianos na minha loja adquirem massa corporal impressionante após um mês se alimentando de escarola. A folha é presa à borda do aquário com um prendedor com ventosa, e deixada ali até consumida, ou retirada se ficar de um dia para o outro no aquário. Esse procedimento evita problemas de apodrecimento da folha no aquário, e a substituição diária provê os peixes de alimento sempre fresco.

Peixes que se alimentam de outros peixes deveriam ser alimentados apenas com itens marinhos. A diferença entre os ácidos graxos, gorduras, proteínas e outros fatores entre a carne de peixe marinho e de água doce faz diferença considerável a longo prazo; muitos peixes leão que conheço têm problemas de baixa taxa de crescimento, descoloração e magreza crônica, e estou certo de que em grande parte devido à alimentação inadequada. Algumas garoupas, peixes leão e outros predadores se habituam a alimento seco, marcadamente granulados. A alimentação com carne, no entanto, não deve ser abandonada. Em meu ponto de vista, esses animais deviam receber a alimentação que encontram no mar, para se desenvolver bem; alimentar sua garoupa com palhaços e donzelas, no entanto, pode ficar caro para. A respeito desses predadores maiores, o fator de mais séria consideração deveria ser o tamanho que adquirem rapidamente; peixes leão ficam com 40 cm e mais de 1 Kg de massa em dois anos; garoupas podem chegar a 40 Kgs no mar, e o único obstáculo a elas no aquário é o tamanho do próprio aquário e do bolso do seu dono; uma garoupa de 2 Kgs come seu próprio peso em um mês.



Definitivamente, é um mercado jovem, não só no Brasil, mas no mundo todo; as únicas tentativas de se limitar as espécies de peixes a serem importados para qualquer país foram tomadas na Alemanha durante a década de 80. Peixes anjo, conhecidos por possuírem territórios de até 3.000 metros quadrados no mar, foram proibidos naquele país. Após anos de embates legais, a decisão caiu, e hoje se pode encontrar anjos à venda novamente.

Acho que essa decisão é muito humana, pois o que se tentou durante aquele período foi educar o público consumidor para que prestassem atenção ao fato que os animas têm necessidades específicas.

Particularmente, acho que não se poderia importar qualquer peixe que atingisse, após um ano, comprimento total maior do que 50 centímetros. Tubarões, arraias, e outros, que crescem muito e rapidamente, deveriam ser importados apenas sob autorização especial. Deveriam ser muito caros, também. Muito mais caros do que hoje em dia. Uma razão de 10 vezes seria aceitável. Se um tubarão custasse dez vezes mais do que custa atualmente, teríamos gente preocupada em manter esses animais em aquário de tamanho apropriado a eles. Já vi tubarões com calos de tanto bater nos vidros do aquário, pequeno demais após apenas um ano e meio. Tortos, com problemas irrecuperáveis de coluna. Com sangramento permanente no focinho, por não conseguir fazer a curva no aquário para se virar quando nada, e outras atrocidades. Tem graça, isso ?

Creio que devemos nos preocupar com a manutenção de nossos animais e a maneira como temos nossos aquários. Devem ser uma fonte de prazer, pesquisa, e tranqüilidade.

Não tem a menor graça um aquário de "pit bulls" se mordendo, onde o aquarista tem que ter cuidado para pôr a mão, sob risco de perder um dedo.


Texto de Ricardo Miozzo, grande abraço a todos.
Voltar ao Topo Ir em baixo
Ver perfil do usuário
 
Peixes Para o Aquario Marinho Parte II
Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo 
Página 1 de 1
 Tópicos similares
-
» Novato querendo montar um aquario marinho
» Ajuda fauna aquario marinho
» Aquario marinho iniciante (Skimmer)
» custo mensal para manter aqurio marinho
» Molinésia em aquario marinho

Permissão deste fórum:Você não pode responder aos tópicos neste fórum
 :: Listas de Discussões :: Aquarismo Marinho em Geral-
Ir para: